Diagnóstico e Tratamento de Pacientes Psicossomáticos: Uma Abordagem Psicocorporal

Périsson Dantas do Nascimento

Resumo


Diferente da ideia reichiana de biopatia, Alexander Lowen discute a visão bioenergética das doenças, tendo como referência a teoria do stress de Hans Selye. O stress é visto como positivo e desafiante para a vida, desde que o organismo avalie que tem recursos para lidar adequadamente com os agentes que demandam uma resposta. Caso contrário, se o organismo avalia que não há condições de enfrentar o estímulo estressor, entrará em um estado de resistência e posterior exaustão, ocasionando o colapso das funções orgânicas, predispondo o organismo a doenças. A produção de energia para o enfrentamento homeostático da ameaça fica comprometida por meio da hiperativação do córtex da suprarrenal, encolhimento do timo e dos nódulos linfáticos, deixando o organismo em uma reação crônica de alarme, típica de choque decorrente de eventos traumáticos. A psicoterapia corporal, mais especificamente a Análise Bioenergética, afirma que toda doença é psicossomática, pois se manifesta por meio de duas faces do funcionamento organísmico – a antítese psique/corpo, que encontra uma síntese funcional na dimensão energética. Mais especificamente, o conceito de caráter vai ganhar uma ênfase nessa leitura, já que serão as configurações caracteriais que determinarão a forma como cada sujeito irá manejar/enfrentar os agentes estressores na vida. A própria noção de caráter refere-se a um funcionamento defensivo construído no decorrer do desenvolvimento da criança, no qual foram introjetados comandos parentais ameaçadores, que bloqueiam os impulsos naturais de expressão e consciência. Uma criança sente a punição ou ameaça de perda de amor dos pais como um choque, um perigo para a sua sobrevivência emocional. Assim, tensões musculares crônicas são construídas como formas de impedir a expressão emocional inapropriada no julgamento dos pais, por exemplo: tensões na garganta e mandíbula para impedir o choro ou tensões nas costas e ombros para impedir a expressão da raiva. Essas tensões crônicas serão a ancoragem somática dos processos de defesa psicodinâmicos, criando um sistema de defesa que, quando submetido a falhas, reaviva a situação de sofrimento original e pode predispor o sujeito a manifestar sua angústia por meio de sintomas somáticos, como uma forma inconsciente de direcionar o foco da atenção para o corpo, em vez dos aspectos emocionais que originaram os traços caracterológicos, fonte de intenso sofrimento. A doença, nessa leitura, seria interpretada como uma tentativa do organismo de não entrar em contato com as situações estressantes originárias, constitutivas das defesas de caráter, pois o sujeito estaria focado nas suas queixas eminentemente orgânicas. Situações atuais de vida que conduzam o sujeito a uma quebra dos padrões defensivos crônicos predisporiam o organismo para uma hiperativação das respostas de enfrentamento,   vulnerabilizando   para   diversas  doenças.  Tais  condições  configuram  o  contexto propício para o melhor ou pior enfrentamento dos desafios cotidianos, nos quais as atitudes caracterológicas são os recursos predominantes  que o  sujeito se utiliza para tal fim, de acordo com as experiências acumuladas em sua história de vida. Atualmente, a compreensão bioenergética dos transtornos psicossomáticos mantém a noção de trauma como eixo etiológico central de análise, no entanto, percebe-se nos autores o diálogo com outras ciências.

 

Palavras-Chave: Psicossomática, Bioenergética, Diagnóstico, Tratamento.


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Referências


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